4.09.2012
São Paulo, 19 de Julho de 1984


Drew,


Hoje é sexta-feira treze! Só penso no dramalhão classe B que virou minha vida. Não seria mais emocionante se tivesse virado um filme de terror, para combinar com o dia? Consigo imaginar o Jason entrando aqui no hospital e esquartejando as enfermeiras carrancudas, os médicos condescendentes. Certo, parei de fantasiar agora. Cristina veio hoje novamente. Ela orou comigo, chorou, me abraçou. Disse que vai continuar orando por mim, que ela acredita na minha cura, que Deus é o Deus do impossível, et cetera ad infinitum... Há sete meses atrás eu diria algo como “haja paciência” e ficaria me contorcendo até ela ir embora, mas agora eu aceito as orações dela. Entendi que mesmo sendo um amor egoísta e partidário, ela me ama. Não sei se tem por aí um amor que não seja assim, condicional. Te amo se você for um bom filho, te amo se você for crente, te amo se você não for crente, te amo se você não der o cu, e assim sucessivamente. E esses “te amo se você isso, te amo se você aquilo” sempre são subentendidos. Coisa subentendida sempre me chateou, pois eu nunca fui apreciador de coisas não ditas, mas dizem tanto que um gesto vale mais que mil palavras que as pessoas acabam acreditando. Tudo mentira. Eu sempre demonstrei amor por minha mãe, mas se ela tivesse morrido sem eu ter dito a ela eu ia me sentir um bosta, e ela ia ficar triste também. Se as pessoas querem ouvir os sentimentos, então por que elas não falam dos delas? Nunca entendi muito bem isso, mas aprendi a aceitar um pouco. Pelo menos aceito das pessoas que eu amo. Pai não veio me visitar, mas Cristina disse que ele sempre pergunta por mim. Eu nunca pergunto por ele, mas sempre quero perguntar. Essa talvez seja a única coisa que eu deixo subentendido, meu amor a Pai. O desgraçado nem merece meu amor! E eu aprendi que mesmo que eu o odeie, na verdade eu o amo. E percebi que estou ficando doido. Já diziam as pessoas que câncer afeta a cabeça, mas eu não acreditava, mas isso de eu odiar e amar o pai só deve ser prova de que estou doido. Melhor parar por aqui, senão eu vou falar mais merda e denegrir mais minha imagem.

Amor,
Julio
P.S.: Você deve ter percebido que eu desisti da resolução de falar menos palavrão. Achei que seria mesquinho demais comigo mesmo tirar essa liberdade de mim. Se eu quero falar porra, caralho, vai tomar no cu, eu falarei.

2.02.2012
São Paulo, 12 de Junho de 1984

Drew, 

Feliz dia dos namorados! Sei que você está louca para vir aqui me dar um beijo, mas não vai ser dessa vez ainda, pena. Tomei coragem e liguei para o médico em Miami. Mandei os resultados dos exames para ele via fax. Ele disse que não podia fazer nada por mim, não nessa fase da doença. Se eu tivesse entrado em contato um ano atrás ele poderia me ajudar. Um ano! Porra. Eu descobri essa merda há seis meses. Sou conhecido aqui no hospital como bicha aidética. O interessante é que eu não tenho AIDS, mas é só ver uma bicha magra morrendo que as pessoas pensam logo que temos AIDS. Animalzinho miserável que é o ser humano. Dá vontade de morrer só para não ter que conviver com essas pessoas. Isso faz de mim um suicida? E se fizer, eu vou para o inferno? Existe inferno? Digo, inferno após a morte, porque o inferno na Terra eu sei que existe, talvez até já tenha te falado isso, estou hospedado nele desde que descobri essa doença. Mentira. Estou hospedado nele há bem mais tempo, mas eu não percebia. Agora que eu não posso ir para boates dançar e beber até cair percebo que não sinto falta de nada daquilo. Isso faz eu me perguntar por que eu ia pra esses lugares beber até cair e trepar com todos que dessem chance se nunca foi algo que eu realmente quis fazer. Entenda, não estou dando uma de santinho, na verdade estou percebendo mais uma vez minha idiotice. Eu sempre quis ter uma casa, um cara legal e quem sabe um cachorro. Ao invés de procurar essa vida eu fazia exatamente o contrário porque era o que os gays que eu conheço faziam. E eu nem tentei procurar conhecer gays diferentes. Não que ir para boates fosse ruim, eu me diverti muito, mas não foi algo que me fez mais feliz. O ruim de se sentir nos últimos dias de vida é isso, a gente começa a perceber todo o tempo perdido, e percebe também que não tem mais tempo para fazer o que se quer e tentar ser feliz de verdade. Eu sei que se eu não estivesse doente eu ia continuar vivendo daquela forma até ficar velho, e quando me visse uma bicha velha e infeliz eu ia tentar ter uma vida calma porque estaria velho e doente, não aguentaria mais esse ritmo de vida. Ou seja, de uma forma ou outra eu me veria nessa situação de perda de vida. E essa perda de vida que falo não é por causa da morte eminente, mas por causa da vida perdida que tive. Eu sei que tem pessoas que aproveitam a vida desse jeito, mas eu estava apenas desperdiçando. Como é possível que alguém passe a vida toda fazendo algo que não quer só porque todo mundo faz? Eu sou muito idiota. 

Amor,

Julio
1.30.2012
São Paulo, 12 de Maio de 1984 

Drew, 

Eu estava refletindo, pois é uma das poucas coisas que conseguimos fazer numa cama de hospital. Uma mulher da igreja de meus pais veio aqui me visitar. Disse que queria orar por mim. Eu disse-lhe que ela não precisava orar por mim, e quando eu ia completar a frase dizendo que poderíamos orar juntos ela me cortou dizendo que eu era um ingrato. Eu tentei completar a frase, mas a mulher estava tão enfurecida dizendo que eu era uma vergonha para uma mulher tão maravilhosa como minha mãe. Te falei que ela era amiga de minha mãe? Então, minha mãe era realmente especial, porque aturar uma pessoa dessas requer habilidades sobre-humanas. Antes que ela ficasse histérica eu berrei que ela poderia enfiar a Bíblia à milanesa no meio do cu. Engraçado como meu grito e mal palavreado foram eficazes para ela calar a boca. Pouco me importa o que ela pensa de mim. É muito fácil vir aqui me julgar. Antes de sair ela falou que eu estava pagando pelos meus pecados. Ri da cara dela e disse que ainda bem que eu tinha pecado bastante, senão me sentiria injustiçado. Pena que quando ela foi embora senti vontade de chorar. Eu ODEIO chorar, borra a maquiagem. Claro que isso foi ironia, nunca gostei de usar maquiagem, acho coisa de viado. Estou rindo alto aqui na cama, sozinho. Uma enfermeira acabou de passar pela porta e me lançar um olhar estranho. Perguntar por que a bicha cancerosa está rindo ela não vem, né? “Mais fácil olhar de longe e achar estranho que chegar perto e sentir o cheiro da decadência”, já dizia minha mãe. Eu tinha tanta pena dela quando ela dizia isso referindo-se a si mesma. Doía tanto ver ela rindo da situação, tentando deixar o clima leve. Meio difícil conseguir isso estando com uma série de tubos enfiados pelo corpo, mas eu sorria. Sorria só para deixar ela satisfeita, porque minha vontade era de chorar também, como agora. Engraçado que eu consigo ver que ela não merecia uma morte dessas, mas me vendo na mesma situação acho que eu mereci. Sentimento de autopunição é uma bosta. Ícaro dizia que é o subconsciente que busca uma desculpa pra toda merda que a gente vive. Eu acho melhor inventar uma desculpa que achar que está sendo injustiçado. Prefiro achar que nada é por acaso, sei lá. De repente essa doença está servindo para me mostrar algo profundo e importante. Só não consegui perceber ainda o que é isso. Sinta-se à vontade para vir me visitar e dizer. 

Amor,

Julio
1.27.2012
Futura amiga,

Nunca gostei de que tentassem ler nas entrelinhas quando eu falava. Simplesmente porque fala não tem linha, você fala ou cala. O que capta entrelinha é o olho, não o ouvido. A entrelinha do meio sorriso, que pode ser triste, aquele meio sorriso resignado de quem não conseguiu alcançar a expectativa - sua ou alheia, a entrelinha dos franzidos, sejam eles no cenho, na testa, no canto da boca. Não sei, não sei, sempre desconfiei das entrelinhas. Acho que porque elas sempre são tão fáceis de ser mal interpretadas. A verdade é que aqui é o único lugar que gosto de praticar as entrelinhas. Já fui mal interpretada, mas não ligo, a mente interpreta de acordo com o que há nela. E mesmo que não te deixem acreditar, ela é livre - a mente.
É que hoje acordei assustada, mas assustada sem medo, então se é sem medo não é assustada? Tudo bem, acordei surpresa. Surpresa com o fato de que não dá para ser só, e de que esse fato implica em entrelinhas, bem ou mal interpretadas, e que é coisa da vida isso de não saber o que se quer dizer ou entender o que se ouviu. Vou tentar não ler nas suas entrelinhas, vou perguntar. Quem sabe assim os mal entendidos diminuem?
1.26.2012


São Paulo, 23 de Abril de 1984

Drew,

Hoje foi um dia péssimo. Mais péssimo que os anteriores, mas não quero falar nisso agora. Fui para a igreja ontem. Impressionante como um lugar pode permanecer igual depois de quinze anos distante. Pai me viu, mas preferiu fingir que não. Cristina me abraçou, juro que estava segurando as lágrimas. Fiquei com pena dela. Não gosto muito de passar uma imagem de algo que não sou, mas nesse caso não vi necessidade de magoar minha irmã e acabar com a ilusão dela. Fui falar com Joel. Ele continua a mesma coisa também: alto, sensual, perfumado, lindo. Minha adolescência veio me assombrar, mas consegui segurar o fantasma dela pelos cabelos e manter o controle. Ele queria falar em particular comigo e eu percebi nos olhos dele que se eu quisesse continuar o que paramos pela metade há quinze anos atrás ele estaria disposto. Preferi permanecer no seguro e disse que não precisava. Pedi o telefone do amigo dele que é médico em Miami. Ele me passou o número, agradeci e fui embora me parabenizando por mais esse gesto de decência. Tudo bem que estou impotente e mesmo que quisesse algo com ele não conseguiria levantar nem com a ajuda de um guindaste, mas eu senti que mesmo que eu pudesse, eu não queria. A mulher dele é bonita, e a filhinha deles é como um raio de Sol de tão preciosa.

Amor,

Julio
1.23.2012
São Paulo, 1 de Abril de 1984

Drew,

Ontem fui ao médico para a consulta de acompanhamento levando os exames. Foi constatado que estou curado.










Primeiro de Abril!

Ah, vai me dizer que você não achou minha piada engraçada. Poxa, você não tem humor algum. Retiro o que disse, você tem muito humor, só que ele é negro e mortal. Agora você achou minha piada engraçada, né, sua vaca? Viu como estou melhorando? Se fosse há uma mês atrás eu te chamaria de puta rasteira. Você é tão... Tão... Espera que estou procurando uma palavra para te descrever que não seja palavrão... Tão maliciosa... Os tumores reduziram de tamanho, mas não sumiram. Meus cabelos incrivelmente estão intactos, então resolvi deixá-los crescer. Acho que é meu último ato de rebeldia, já que não posso sair por aí trepando com todos os caras que puder até meu pau cair. Você acredita que meu cabelo não caiu, mas meu pau não levanta por nada nesse mundo? Isso é arte tua, tenho certeza! Também não tenho sentido muita vontade de trepar mesmo, mas continuando... Cristina veio aqui. Disse pra eu voltar pra Cristo. Eu queria ter rido na cara dela, como fiz daquela vez que ela me encontrou caído na sarjeta, porém hoje sou menos orgulhoso. Não aconselho tentar me entender, pois nem eu mesmo consigo absorver uma pessoa que permanece orgulhosa quando levou uma surra e foi jogada na sarjeta por quem deveria ser seu namorado. Deve ser o sangue. Quando ela me encontrou daquela vez eu estava ensanguentado, e sangue sempre traz um sentimento de selvageria nas pessoas. Mentira, são os anos. Naquela época eu era muito mais idiota do que sou hoje. Tanto que eu nem acreditava que era idiota, imagine assumir! Conversamos por um tempo, disse a ela que vou voltar para Jesus. Ela entendeu da forma que quis, e ambos saímos felizes. Ela quer que eu vá para a igreja com ela no domingo. Eu não vou. Ela disse que se eu quero voltar pra Cristo, eu tenho que congregar. Eu disse a ela que voltar para Cristo não implica suportar os olhares. Tem os de pena das senhoras puritanas, os atravessados das meninas bobocas, e os de ódio das bichas enrustidas que têm na igreja. Disse a ela que vou ler a Bíblia em casa e vou orar. Mudando já estou e ela percebeu, então ela não quis argumentar comigo, acho que para não enervar o doente. Estou lendo a Bíblia todos os dias desde que descobri a doença. Começou por divertimento, para achar as promessas não cumpridas de Deus. Achei algumas, mas achei tantas que já foram cumpridas que fiquei sem graça de divulgar as que ainda estão pendentes. Não posso criticar abertamente um cara que é melhor que eu, né? Viu como estou mudado? A cada linha provo mais e mais minha mudança, veja que disse que Deus é melhor que eu! Não sou uma pessoa maravilhosa?

Amor,

Julio
1.18.2012


Igraine,

Hoje é sexta-feira treze. Algumas pessoas acham que é dia de azar. Outras que é dia de sorte. Para mim é o teu dia, um dia místico. Simples assim. Consigo te ver fiando, olhando o horizonte sem realmente ver o que está lá, pois você está vendo o que está por vir - ou o que passou, ouvindo os sussuros do passado e do futuro.
Eu sempre procurei desculpas para o que você fazia. Às vezes era a idade, outras  vezes era a obediência ou a fé. Acho que sempre fui condescendente com você. E olha que normalmente eu não sou assim. Não olhe para mim com esse olhar enviezado. Eu te respeito, hoje posso dizer isso.
Sempre houve em mim essa simpatia que eu tentava explicar - eu gosto de explicar as coisas, inclusive e principalmente meus sentimentos. Via a menina que se casou para satisfazer a vontade da família e que estava traindo para satisfazer a vontade da mesma família e pensava "nossa como você é bobinha, Igraine". Nunca consegui antipatizar você. Tentei sim, quando te vi sendo uma mãe relapsa, um bibelô ao lado de Uther, uma Rainha Mãe apagada...
E eu vi você crescer, Igraine. Te julguei muitas vezes, afinal quem nunca julgou injustamente? Fico feliz de ter tido tempo de mudar meu julgamento, de ter ver por quem você é, de saber que por mais que parecesse, você não era uma bobinha manipulada. E parecia tanto...
Vou me repetir dizendo que sempre simpatizei contigo, mas não chegava a nada além disso, uma simpatia. Daquelas que temos por alguém que nós não destestamos, mas não fazemos questão de estar perto, daquelas que temos por bebês, mas não queremos ter trabalho com eles. E essa simpatia meio vazia durou até perto da sua morte.
Fico feliz por não ter te julgado daquela vez, quando você foi para o convento. Não me magoou, na verdade nem incomodou. Provavelmente porque eu sempre tive em mim que na verdade não importa a religião que a pessoa segue, desde que ela seja alguém verdadeiro. Eu sempre te achei verdadeira, Igraine. Com todas suas falhas, com todo seu amor, com todo seu sofrimento, você foi verdadeira, completa.
À beira da morte você falou exatamente o que eu penso, que a Deusa está acima de todas as religiões, as religiões aparecem e desaparecem, mas a Deusa pemanece.
Eu senti tua dor, Igraine, quando você falou que não tinha bebido cicuta, mas era como se tivesse bebido, e que o frio estava chegando a teu coração. Naquele momento, naquele último momento, eu te amei integralmente.
Amo tua memória.

Amor,

Rebeca

"Ela também é Grande rainha desta terra..."


Essa carta foi escrita sexta-feira passada, infelizmente não pude postar na data.
 

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