Drew,
Hoje é sexta-feira treze! Só penso no dramalhão classe B que virou minha vida. Não seria mais emocionante se tivesse virado um filme de terror, para combinar com o dia? Consigo imaginar o Jason entrando aqui no hospital e esquartejando as enfermeiras carrancudas, os médicos condescendentes. Certo, parei de fantasiar agora. Cristina veio hoje novamente. Ela orou comigo, chorou, me abraçou. Disse que vai continuar orando por mim, que ela acredita na minha cura, que Deus é o Deus do impossível, et cetera ad infinitum... Há sete meses atrás eu diria algo como “haja paciência” e ficaria me contorcendo até ela ir embora, mas agora eu aceito as orações dela. Entendi que mesmo sendo um amor egoísta e partidário, ela me ama. Não sei se tem por aí um amor que não seja assim, condicional. Te amo se você for um bom filho, te amo se você for crente, te amo se você não for crente, te amo se você não der o cu, e assim sucessivamente. E esses “te amo se você isso, te amo se você aquilo” sempre são subentendidos. Coisa subentendida sempre me chateou, pois eu nunca fui apreciador de coisas não ditas, mas dizem tanto que um gesto vale mais que mil palavras que as pessoas acabam acreditando. Tudo mentira. Eu sempre demonstrei amor por minha mãe, mas se ela tivesse morrido sem eu ter dito a ela eu ia me sentir um bosta, e ela ia ficar triste também. Se as pessoas querem ouvir os sentimentos, então por que elas não falam dos delas? Nunca entendi muito bem isso, mas aprendi a aceitar um pouco. Pelo menos aceito das pessoas que eu amo. Pai não veio me visitar, mas Cristina disse que ele sempre pergunta por mim. Eu nunca pergunto por ele, mas sempre quero perguntar. Essa talvez seja a única coisa que eu deixo subentendido, meu amor a Pai. O desgraçado nem merece meu amor! E eu aprendi que mesmo que eu o odeie, na verdade eu o amo. E percebi que estou ficando doido. Já diziam as pessoas que câncer afeta a cabeça, mas eu não acreditava, mas isso de eu odiar e amar o pai só deve ser prova de que estou doido. Melhor parar por aqui, senão eu vou falar mais merda e denegrir mais minha imagem.
Amor,
Julio
P.S.: Você deve ter percebido que eu desisti da resolução de falar menos palavrão. Achei que seria mesquinho demais comigo mesmo tirar essa liberdade de mim. Se eu quero falar porra, caralho, vai tomar no cu, eu falarei.




Quando você oferece algo que tem valor para você e para o comprador, você está vendendo. Quando você oferece algo que tem valor só para você mesmo, você está se prostituindo.


